O Resgate no Mar

Quando era pequena, nunca gostei de pisar em poças. Não temia minhocas afogadas ou meias molhadas; eu era de um modo geral, uma criança suja, com uma abençoada indiferença a imundices de qualquer espécie.

Era porque eu não conseguia acreditar que aquela superfície perfeitamente lisa fosse apenas uma fina lâmina de água sobre o solo firme. Eu acreditava tratar-se da entrada de algum espaço insondável. Às vezes, vendo as minúsculas ondulações na água causadas pela minha aproximação, eu imaginava a poça incrivelmente profunda, um mar abismal onde se ocultavam tentáculos preguiçosamente enroscados e escamas reluzentes, com a ameaça de corpos imensos e dentes afiados à deriva e silenciosos na profundezas sem fim.

Em seguida, olhando para o reflexo na água, eu podia ver meu próprio rosto redondo e os cabelos crespos contra um expansão azul e uniforme. Pensava, então, que a poça fosse a entrada de um outro céu. Se eu pisasse ali, cairia imediatamente, e continuaria caindo, indefinidamente, pelo espaço azul.

A única hora em que ousava atravessar uma poça era ao crepúsculo, quando as estrelas começavam a surgir. Se eu olhasse dentro da água e visse ali o reflexo de um pontinho cintilante, poderia passar sem medo, chapinhando água para todos os lados – porque se eu caísse na poça e dentro do espaço, eu poderia agarrar-me à estrela na queda e me salvar.

Mesmo agora, quando vejo uma poça em meu caminho, minha mente hesita – ainda que meus pés não o façam – , depois dispara, deixando para trás apenas o eco do pensamento.

E se desta vez você cair?​ ¹

Admirável Mundo Novo

Mundo

Aldous Leonard Huxley (Godalming, 26 de Julho de 1894 — Los Angeles, 22 de Novembro de 1963) foi um escritor inglês e um dos mais proeminentes membros da família Huxley. Passou parte da sua vida nos Estados Unidos, e viveu em Los Angeles de 1937 até à sua morte, em 1963. Mais conhecido pelos seus romances, como Admirável Mundo Novo e diversos ensaios. ¹

Claire & Jamie

O texto abaixo foi feito a pedido da Vivi, para seu ex-blog, Romance Gracinha. A idéia era criar posts sobre casais de várias obras literárias. Como sou eternamente fã da série Outlander de Diana Gabaldon, tive a honra de poder escrever sobre meu casal preferido, Jamie e Claire.

Eu confesso que fiquei alguns minutos em frente ao meu computador pensando por onde começar… e por alguns momentos eu pensei que talvez não conseguisse expressar através de palavras o sentimento que foi passado a mim quando li a história deste casal. Para quem nunca leu os livros acho que seria impossível compreender ou talvez tentar entender a essência do romance entre Claire e Jamie através das minhas palavras, e acho que os que acompanham a história, como eu, também teriam dificuldades de explicar esse sentimento, ainda mais sabendo que é apenas uma história, inventada, criada, sonhada, mas posso garantir, com toda certeza, que não como todas as outras.

Eu poderia dizer que começou com um simples olhar, à primeira vista, no primeiro encontro, com arrebatadora paixão e desejo, mas não foi assim, não como estamos acostumados a ver em outros livros e outros romances. Tudo começou com o acaso, ou talvez destino… destino, palavra que define como nenhuma outra os livros de Diana Gabaldon, parece ser a palavra chave que deu início a uma amizade profunda cultivada através da convivência diária entre ambos os personagens. Quando você começa a ler o primeiro livro da série, você nem tem idéia de que Claire um dia se tornaria a vida de Jamie e Jamie se tornaria a vida de Claire. Os acontecimentos são tão sutis, que mesmo o leitor mais experiente, não se da conta de que aquela amizade inicial entre os personagens viraria algo tão profundo a ponto de nos fazer querer e desejar este sentimento para nós mesmos.

Então temos a pergunta: Quem é Claire e quem é Jamie? Inúmeras palavras, adjetivos e defeitos poderiam definir a ambos, porém a complexidade que envolve estes dois personagens vai muito além de simples adjetivos. Um resumo de ambos seria: Claire, mulher, enfermeira, sobrevivente de um mundo pós-guerra, jogada no tempo e deixando para trás um amor, conhece Jamie, escocês, inteligente, malicioso, também inocente, que iria se tornar seu novo e último grande amor. Ouso dizer que Jamie é mais que o último grande amor de Claire ou vice-versa, é mais do que palavras, carinho e devoção. Ás vezes ao longo da história parece que Jamie e Claire são um só, como se ambos formassem um só personagem, que desse todo o rumo, sentimento ou sentido a cada parágrafo lido. Cada toque, cada palavra, afirmação ou reafirmação de desejos e promessas entre ambos são únicas. Não existem mentiras ou enganos, é tudo muito sincero, muito real, por mais que saibamos de que se trata de uma ficção. Mesmo com as piores adversidades, as mais cruéis provas, a sinceridade entre ambos é algo sem limites e porque não dizer invejável, afinal quem não gostaria de poder ter uma relação tão sincera assim? Sem julgamentos, arrependimentos ou culpas.

 

Enfim, Claire é uma personagem forte, decidida e vivida, que por um acaso do destino, ou não, volta no tempo e conhece Jamie Fraser, mais jovem e em alguns momentos, inocente. Ambos em meio a inúmeras atribulações se tornam amigos, se casam por uma imposição no início e se mantém unidos por amor depois. Durante toda a narrativa vemos os sofrimentos por quais ambos passam, a angústia de Claire e seu dilema por querer voltar ao seu tempo, ao seu antigo amor e ao mesmo tempo sua relutância em não querer abandonar seu novo amor, Jamie. Um dos momentos mais lindos do livro, me arrisco a dizer de todos os livros da série, sem dúvida, é o momento da decisão de Claire, quando ela finalmente decide por Jamie, quando ela decide abandonar seu passado que por ironia é o futuro, para ficar ao lado de seu grande amor. Com simples passos Claire percebe que seu corpo, sua vontade e seu coração passaram a pertencer apenas a Jamie. Por muitas vezes durante as minhas leituras dos livros eu me perguntava: Será que eu faria o que Claire fez? Abandonaria tudo, todos por um grande amor? Às vezes eu ainda me pego sem ter uma resposta e acho que cada um que acompanha a história ainda não formulou a sua. Isso porque a todo o momento em que a dúvida aparece à Claire, ela se incorpora a nós leitores, mas ao mesmo tempo é dissipada quando a personagem nos releva que não há dúvidas, voltas ou arrependimentos. E estes momentos são gloriosos, porque é sempre no instante em que Claire olha para Jamie ou quando Jamie olha para Claire.

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